Um dia, ainda miúdo, calcorreava sozinho os terrenos da Festa do Avante, perdido entre pensamentos sobre uma noite mágica para um adolescente e um crescente sentimento de fome. Já não tinha dinheiro praticamente nenhum a não ser para a viagem de regresso a Aveiro, e por isso sentei-me no chão como que a despedir-me do espaço, e de todos os que os povoavam. Alguém, vindo dum grupo de homens que comia frango assado ali perto, perguntou-me se não me queria juntar, e passou-me para as mãos uma dose generosa de frango num guardanapo. Era Álvaro Cunhal, de baixa estatura (lembro-me de reparar nisso) e com um sorriso do tamanho do mundo, que ficou a falar comigo durante alguns minutos.
Nunca mais o vi, mas desde então acho que penso nisto um bocadinho todos os dias, e hoje senti necessidade de o escrever aqui...